Primeiro esboço antes do segundo visionamento
Antes de começar a dar a minha opinião sobre este filme convêm dizer que a cada fotograma sentia-me remetido para outros filmes. Mais uma vês a abordagem de uma historia onde cinema teatro representação ou melhor as artes cénicas ajudam a compor a historia a historia dentro da historia.
Mas o mais interessante é que se não soubesse há priori o nome do realizador e fosse comentar com um colega as impressões que tive cometeria o erro de dizer que era do Almodovar, primeiro pela eterna temática ou melhor a sempre eterna imagem materna origem e catapulta de todos os dramas onde directa ou indirectamente todos giram há volta.
Mas não era do Almodôvar, ate tinha artistas com quem este costuma trabalhar, e ver uma Carmem Maura no papel que interpreta senhora da critica divindade na terra que potencializa as artes no papel ela própria uma obra de arte da representação e sempre com aquela postura que sentados na distancia nos faz esboçar um sorriso secreto dizendo que senhora.
Antes de começar já tendo começado apetece-me voltar a ver o filme, pois há toda uma linguagem de pormenores importantes, é daqueles filmes que tudo o que se é dado a ver tem um significado no todo discursivo que narra e ajuda a compor a narrativa e são esses pormenores que fazem a diferença.
E como olharmos um vestido de alta-costura e darmo-nos conta que cada ponto cada pormenor foi pensado ate ao mais ínfimo pormenor. Assim cada fotograma aporta doda uma serie de significações que ajudam toda a narrativa.
“ este é o momento inevitável em que o poeta deve actuar”, diz um dos personagens.
E o que temos há nossa frente e a grande poesia a que abraça tudo e todos abrasa as muitas hipóteses da linguagem cinematográfica e arrasamos ali na cadeira.
Um presente na dupla acepção da palavra, uma prenda para quem assiste e um presente a preto e branco onde os personagens desejam ver colorido.
Um passado colorido para os personagens que o tempo não deixa que a poeira o esbata.
Mas toda a narrativa essa e feita por gavetões a introdução onde se apresentam os personagens, carregados de conotações, o autocarro, o murro o grafite, a passadeira a procura a porta. As apresentações o passeio pela zona da vida onde se vai passar o presente carregado de múltiplas vidas, tangos no tango este já sem fronteiras nas sonoridades e nos compassos da existência.
Ela dança no barão essa eterna dança de varão, e termina o treino para gáudio de todos e depois com saleiro essa insinuação a compasso de tango preparando o tango que se segue introduzindo com a dança sempre presente em todo o filme elementos narrativo, e entra em cena um espelho, para sertãs culturas o espelho esse tem diferentes conotações aqui diz-nos que vamos falar de fantasmas que ainda existem ali no intimo dos personagens e assim com um espelho e através de planos é-nos introduzida a carga dramática, e surge o imagem da mãe, já esboçada no acto introdutório, pelo tango “tomei o comboio e…da minha mãe e em cada estação estação paria o meu prevenir”, aqui o filho para na estação presente da vida e naquela estação procura respostas dos fantasmas, ali o apeadeiro, ali se vai desenvolver a catarse que todos trazem nos ombros da existência. E naquele momento onde o espelho nos diz estamos a falar de fantasmas que assolam estas pessoas damo-nos conta da estruturação da tragédia que os acompanha.
O que nos ensina a tragédia grega é que todas as tragédias são familiares e esta não foge a este princípio, e no presente entre fantasmas somos introduzidos nas várias procuras e desistências dos personagens, ai é nos é feita o ponto de situação, porque a fuga. O significado da imagem da mãe, e toda a tragédia a sua volta, os remédios para se tentar sarar as imagens do passado.
Mais uma vez os pormenores são importantes, numa terapia de rádio ele trás consigo num saco plástico os destroços esfarrapados da vida, el do outro lado em frente a uma parede colorida coberta de destroços coloridos cruzam os olhares, e assim ambos na vida da reconstrução e da procura enamoram-se.
Depois a imagem do cigarra como metáfora ao amor que se consome mas a cada baforada se morre Fénix do verbo amar eterno fogo das uniões.
E mais uma vês como já referido o cinema dentro do cinema o filme que nos ajudam a estruturar os personagens e os seus dramas, mas o filme aborda muitas outras questões o problema dos nomes na obra literária onde mais uma vês o drama familiar aflora.
Usando a mesma semiótica da escrita de um dos personagens: A ama um A na ondulação de um M que da origem ao verbo que tudo une e diz AMA.
E sempre a memória “ não olhes para a luz não olhes”, inscrevendo a viagem como certeza, e o gelo começa a derreter, o glaciar degela.
Mas ate se iniciar a viagem e há muitas formas de viajar a externa e a interna, e na ajuda da viajem interna mais um pormenor é introduzido, o cão, ou melhor é o terceiro momento narrativo a educação, ai discute-se a educação, a narrativa o teatro, o descodificar linguagens o a partir de criar, e sempre a luta um que anseia o outro que desiste um que aos poucos quer fazer renascer o outro renascendo com ele.
“não soltes a soga que esta atada há tua alma”. No fundo é isto que todos perseguem. E nesta frase de grafite, inicial há mais elegante encenação fúnebre no palco onde se é revelado os anseios e as procura tendo sempre o cinema como arte e estrutura narrativa somos abrasados no tango de um filme magnífico e arrebatador.
Tento não descrever o filme para isso o mais que tenho que fazer é dizer se não vires perdes um grande filme.
Pois existem coisas que não é a descrição do que vimos que importa é levar o outro a comungar de todo um poema que nos é oferecido a degustar intimidade.
E é nesse momento que em vez de contar e dizer olha e assim é assado mais vale dizer, vê e fica abrasado pois a cada fotograma es sempre acarinhado por uma arte no movimento dos devires onde através de outros personagens dás-te conta que a música também mora ao teu lado.
Por isso deixem-se levar nesse tango de família sentados no escurinho do cinema.

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