UM CONTO DE NATAL
Introdução
Este texto é inspirado no meu avo e nos seus dias do sofá a contemplar a lareira
Todos os anos por altura do natal invento um conto para contar aos sobrinhos. Tento ser original, ou partindo doutro conto, dar outros pontos para assim manter viva a memória em que se contavam histórias no calor da cozinha onde a lareira mantinha a chama acesa do habitar.
As meias do pai natal
Era uma vez das tantas vezes da sua vida em que olhava o teto do quarto e não lhe apetecia sair da cama. Sentia-se velho cansado e naqueles dias o frio parecia mais intenso, pois o seu nariz andava quase sempre vermelho, já era habitual ter aquela cor na ponta do nariz, mas naquele inverno tornava-se mais visível. O cansaço também estava presente no seu acordar e por vezes pensava que acordava mais cansado da do sono que deveria ser para recuperar forças do cansaço que o levava para a cama.
Mas naquele dia tudo estava diferente dentro daquele ritmo normale das coisas repetidas todos os dias.
Olhava para a chaminé, e parecia que esta estava diferente, pegou na caixa de fósforos e decidiu acender o fogo para aquecer a casa, e depois deste estar aceso, sentou-se na poltrona e demorou-se com os olhos nas chamas a vibrar, e nesse instante sentiu que tinha frio, que tinha frio de afectos e não se sentia querido há muito tempo. Estava na época em que todas as crianças pensavam nele e ele estava ali sozinho, naquela poltrona solitário a ver as chamas da lareira que começavam a ter um significado terminando um silêncio de anonimato dos anos em que não se dava conta que as chamas do fogo também falam ao coração.
Ele nos tempos em que era mais novo e ainda se chamava Nicolau inventara uma forma de tentar fazer feliz alguém que precisasse. Depois com o tempo o número de pessoas a quem devia ajudar aumentou e a sua forma de ajudar tornou-se exemplo e a sua imagem deu lugar a um personagem que muitas vezes se distanciava da realidade.
Ainda tinha um grupo de pessoas que o ajudavam, entrando num ritual secreto, e devido a esse ritual, uma vez por ano essas pessoas eram chamadas de gnomos, pois encarregavam-se de fazer as compras para serem as prendas na noite onde todos se reunião há volta do calor de uma mesa, e há mesa secretamente começava-se com a alimentação a troca de prendas.
Mas naqueles dias as suas forças estavam debilitadas, os centros comerciais eram uma concorrência deslial para a sua fabriqueta artesanal e a sociedade secreta dos gnomos na sua maioria tinha desertado da sociedade secreta tornando os centros comerciais a base de um ritual que aos poucos ia perdendo as suas marcas.
E naqueles dias ali há frente das fagulhas palpitantes sentia-se cansaço, parecia que aquela poltrona fiel companheira o ia comendo, e ele desaparecia ao contemplar o fogo.
Estava triste todos os natais, nos outros natais, mal dormia de impaciente, sempre a telefonar para os gnomos espalhados se os armazéns de abastecimento estavam bem. Sempre inquieto para que tudo corresse bem ma corrida dos afazeres dos tantos fazeres que há em prepara a distribuição de prendas.
Mas estava ali sozinho triste, ate a mãe natal decidira ir para a cidade passar uns tempos pois estava cansada de viver naquela casinha isolada.
Os gnomos esses dispersos já nem telefonavam nem diziam nada, outras preocupações os distraiam. E ali estava ele sozinho sem vontade nenhuma de fazer o que costumava fazer. Passava os natais a distribuir prendas desde criança e ali estava sozinho e o único rumor que ouvia eram as chamas da lareira que já não queciam aquel coração.
Quanto mais pensava mais se enterava no sofá. E se tinha vontade de fazer algo menos vontade sentia em fazer.
Estávamos nas vésperas da festa onde ele estava sempre ocupado, mas naquele dia já não se preocupava com nada, e pela primeira vez ponderava em não sair. E nem vontade tinha em distribuir prendas, só há prendas para distribuir quando o coração murmura cantigas de amor, e na abrangência daquele verbo que tudo pode abraçar mas não sentia nada.
E ali estava ele perdido nos seus silenciosos murmúrios que o seu interior gritava no desespero.
E entre pensamentos que só o faziam enterrar nos aconchegos do sofá deu-se conta que tinha de lavar as meias. Levantou-se vagarosamente e dirigiu-se ao pequeno cubículo da lavandaria pôs uma bacia por baixo da torneira e abriu a água. O barulho do líquido precioso começou a ecoar e nos seus vagares pesarosos da idade, baixou-se pegou no detergente e voltou para junto da bacia. Deitou um pouco de detergente na água e esta começou a fazer bolhas com a agitação desta que ainda corria da torneira para a bacia.
Pegou nas meias que estavam ali ao lado e colocou-as na bacia com a mão pressionou-as para estas ficarem bem ensopadas com a água e o detergente. E depois de tirar as mãos da água com detergente ficou a olhar para a espuma que tina nas mãos, e a cada rebentar das bolhas pensava nos efémeros fias daqueles dias, e a tristeza parecia o carteiro que tinha trazido postais de boas festas que estavam guardados no passado. Ai sentiu as pernas tremer, os olhos começaram a tremer e em fuga dos postais de boas festas voltou a colocar as mãos na agua com o detergente e começou a esfregar as meias energicamente, com toda a força, tentando lavar as meias e as lembranças que o timão invadido e ali naquele local só lhe faziam mal.
E assim ficou vergado, com o olhar perdido entre o lavar das meias e a poeira das lembranças.
Depois voltou a abrir a água e passou os dois pares de méis por águas e deu-se conta que estas tinham perdido a cor com o passar do tempo. Agarrou no resto da roupa que estava ao lado colocou-a na bacia para ficarem de molho. E como estava frio e a neve caia, colocou as meias na chaminé para secar e voltou-se a sentar no sofá.
O tempo na casa passava rápido e igual todos os dias, a noite chegou, e depois de fazer o que tinha que fazer dos seus afazeres sempre iguais voltou para junto da lareira, apalpou as meias e ainda estavam húmidas. Era véspera de natal, e nessa noite decidira que não iria sair, não iria por as renas no terno, nada, iria para a cama, dormir.
E la foi ele para a cama com aquele andar vagaroso, e já na cama antes de apagar o candeeiro pensou, era tão bom ter umas meias escocesas, aquelas estão já sem cor e tão desbotadas.
Fechou os olhos e adormeceu.
Os duendes que tinham passado o dia escondidos a observar o velhote que os tinha acompanhado naqueles anos, apressaram-se em reunir-se e em surdina na sala ainda ah luz da lareira que tinha ficado acesa para aquecer a casa decidiram tricotar umas meias com pedaços de lã que tinham guardado e restos de outras prendas e ali a luz da lareira tricotaram umas meias ainda o sol não tinha raiado, e já tinham as meias costuradas.
Decidiram coloca-las penduradas junto as outras pois acharam que assim ele teria uma surpresa, e esconderam-se para ver a reacção do velhote.
O velhote acordou enfiou os pés nos chinelos e achou estranho que a casa não tinha arrefecido durante a noite, e estava quentinha, dirigiu-se há lareira e admirado ficou pois a lareira ainda estava acesa, dirigiu-se para junto dela e preparou-se para calçar umas meias e nesse instante reparou que tinha umas meias escocesas novas penduradas na lareira.
Olhou em volta e não viu nada, e nesse instante pensou:
Ai esta idade, ate me esqueci de quem em segredo convive comigo todos os dias, e dando voz ao pensamento balbuciou
- Obrigado Gnomos
Pegou nas meias sentou-se no sofá, e calçou-as, e nesse instante pensou: com a minha idade pareço uma das crianças a quem costumava dar prendas, e nesse instante deu-se conta que faltar ao ritual de todos os anos.
Nesse instante um gnomo saiu detrás de uma cadeira e disse: não te preocupes pró ano há outro Natal. Descansa ate te preparamos a comida e os meninos não vão dar-se conta que este ano não fostes distribuir prendas.
Os gnomos da sociedade encarregaram-se disso. Mas foi diferente
E foi assim que o pai natal teve a sua primeira prenda na noite de Natal, e a sociedade secreta gostou tanto de ter feito feliz o pai natal que a partir desse dia os meninos colocavamas meias na chaminé para receberem a sua prenda e o pai natal ao ver as meias na chaminé lembrar-se que ele também tinha um dia ganho umas meias.
E foi assim
Que na véspera de natal
Junto há chaminé os meninos passaram a colocar, para felicidade dos seus pais , pois presentinho os meninos na tradição também estavam a dar.
24-Dezembro 2009

Sem comentários:
Enviar um comentário