Devido a diálogos sobre passado,
hoje decidi escrever sobre esse passa do, houve um tempo não longínquo em que depois
de ter vivido numa cidade, metrópole florescente que depressa a guerra demonstrou
que ate o florescer de uma cidade qualquer guerra pode danificar estruturas,
fomos viver para uma aldeia remota em trás-os-montes, lembro-me que na cidade
um prédio era um edifício, e ali naquela aldeia um prédio era um campo de
cultivo, terras de cultivo minifundiárias que abasteciam a aldeia de tudo. Criavam-se
animais, cultivava-se a terra ai o sino dolente marcava as horas do dia e a existência
parecia compassada a rifemos de ave marias, e se Maria era a mais cantada na igreja
marias eram muitas raparigas que uma senhora sempre é uma rapariga desde que
essa moça exista dentro dela, e atrás das saias a brincar andavas a correr atrás
da Maria, era uma Maria que te olhava com carinho, era uma Maria que te
escutava ou com ela brincavas, e depois havia outros nomes que compunham o reportório.
Nessa aldeia naqueles tempos
parecia um poema do pessoa, havia harmonia, brincava-se aos cobóis, o tanque de
rega era o fosso do castelo, ou a tábua que punhas no meio entre as suas
paredes era a prancha do barco do capitão gancho que transformavas em trampolim
e eras uma Ester Wiliams entre rãs a coaxar.
Os morangos cresciam a volta do
tanque, e a agua do tanque era a vida da horta, nunca tive jeito para a
agricultura por muito que me esforçasse mas la cresciam as coisas mais por mérito
dos avos ou da mãe que do teu, nessa época para o teu tamanho, lá ias fazendo
pelo menos aprendias ao ver a arte da horta.
E havia um dialogo permanente
ente natureza e quem a cultivava.
A aldeia era distante tudo era
distante a civilização era distante, a electricidade apareceu e com ela o
alcatrão que cobriu a calçada, o telefone, e gradualmente o frigorifico, a tv,
mas o curioso é que havia sempre um rádio ligado de alguém, do vizinho que
ouvia os folhetins, ou o terço, e musica pouca ouvias, e se ouvias eram aqueles
despojos em vinil que trouxestes da cidade onde viveras um dia, e ai parecia
que a musica ficara congelada.
Terminada a quarta classe
ingressas num seminário e ai a cidade esta perto mas esta longe, sabes que por detrás
daqueles muros existe uma cidade, existe um respirar, mas tu vives dentro do
muro, distante da família ali estavas eras dos poucos que ate o fim-de-semana
passavas la, depois com a convivência ouve colegas que la pediam aos pais para
me levar pois ia ficar sozinho, e assim la tive as minhas fugas.
Nessas fugas acontecia de tudo e
tudo novo, fui há caça coisa que nunca tinha ido mas gostaram tanto da minha
companhia que decidiram nã voltar a levar pois espantava toda a caçaria, para
certos caçadores tinham sido a única vês nas suas histórias de caça que nunca
tinham caçado nada nem para amostra, no
dia seguinte la voltaram eles há caça mas eu ficara para trás.
Fui ao meu primeiro jogo de
futebol num campo que para surpresa minha saímos todos a correr pois houve
zaragata e aquilo virou campo de pugilismo.
Fui ao meu primeiro comício de um
partido, levado por um pai de um amigo que decidira levar-nos ao comício e
ficamos assim a saber quem era Sá carneiro, se me perguntarem que discurso fez
não me lembro lembro-me de passar perto de nos que estávamos entretidos num
canto sei que parou olhou para mim e começou a falar comigo, acho que me cumprimentou,
e os maiores lá continuaram nos seus afazeres e nos fomos levados para o
jardim,
A casa era bonita lembro-me disso
e o jardim que parecia grande e se calhar não o era, pos as escalas vistas por
mim nessa época tudo era grande, depois quando voltei aos sítios, dei-me conta
que tinha na memória tamanhos que afinal não correspondiam com a realidade.
O engraçado é que tive o mesmo
problema com pessoas, pessoas que me pareciam altas, grandes, com o tempo
quando voltei a velas dei-me conta que eram ou da minha altura ou mais
pequenas, ou raramente maiores, e só ai dei-me conta que apreendemos o mundo do
ponto de vista a que estamos habituados a vê-lo, e cada um tem a sua escala
particular associada com o seu tamanho. E se es pequeno o mundo parece grande e
se és grande este parece pequeno.
Depois bem nesses fins-de-semana solitários
de seminário onde a missa matinal era o único momento onde vias caras estranhas
pois iam assistir lá há missa, ou grupos de jovens que iam fazer cursos matrimoniais
e como te viam pelo jardim ou pela quinta solitário com o livro do Asterix ou
do tintin la se metiam contigo, e sem saber parecia que também andavas a fazer
cursos matrimoniais, mas comia sozinho ou um irmão ou um padre lá vinham
sentar-se no refeitório grande vazio onde comias solitário numa mesa e eles na
mesa dos tutores.
As aulas era mistas íamos a
escola normal, mas no seminário, o seminário tinha alugado salas qonde a escola
estatal lesionava o programa, só depois comecei a ter aulas no colégio dito
privado.
Mas no seminário não éramos senhor
do tempo éramos senhores da fuga dentro daquele tempo, havia o tempo do acordar
sempre ao som da musica, a higiene, a
oração , a das aulas, o tempo todo era marcado por um horário, e quando as
novelas começaram a ser polémicas e o tempo depois do jantar era dado como
momento livre depressa fomos impedidos de ir para a sala de televisão, e ai Sónia braga nesse Dancingue Daisi, ou
como se chamava deixara de existir mas ela continuava na memória ninfeta.
Do que falava a novela não sei
lembro-me dela e como foi achado que era uma novela devassa depressa foi
fechada a sala, e com isso ate as noticias, e lá ias para o jardim ou lias nun canto
as aventuras dos cinco e outros livros, e um dia naquela biblioteca infantil e
devido a uma professora de português que tinha pedido para fazermos uma
biblioteca de turma onde cada um levava um livro e fazia uma redacção a partir
do livro, que depois era passada a outro colega e assim la ias lendo livros
curtos, e fazendo composições, mas ai nessa biblioteca nessas trocas lembro-me do
meu Pé de Laranja lima lembro-me de chorar e chora ao ler o livro emocionado e
de ter ouvido um raspanete pois entregara uma folha em branco ou antes manchada
com as lágrimas da leitura, para mim aquela era a maior composição que fizera
até então, mas não foi entendida como tal, ouvi um raspanete, mas para mim era
a composição sobre um livro que me emocionou e palavras para que quando elas
estão já naquele livro. O e melhor resumo que aquelas manchas aqueles vestígios
ha cerca de um livro que me fizera chorar sonhar, procurar carinhos, e estar só
mas em camaradas enormes.
Mas depois comecei a escrever,
mas fazia poemas ou pretensões a poemas sobre o que lia naquelas leituras, e
divertia-me imenso em trabalhos manuais e desenho, havia musica independentemente
das aulas de música que tínhamos no seminário, mas naquelas aulas so me lembro
de cantarmos uma música ribatejana. E éramos introduzidas a leitura ha
partituras.
Era aluno mediano com excepção
das disciplinas que me motivavam, lembro-me ter problemas a matemática que so
foram resolvidos mais tarde pois um professor deu-se conta de qual era o meu
problema e no princípio de uma ala explicou-me aquilo de uma forma que sai dão patamar
em que estava para ser ate bom aluno bem as vezes quando gosto exagero pois
lembro-me que me divertia imenso a fazer exercícios de matemática.
A português sempre dei erros, na
primaria os ditados eram terroríficos não pelos ditados mas pelo temor da régua
e da palmatória que depressa deixou de usar mas tinha que escrever ad quase infinito
cada palavra e ali estava eu.
Mas também fiz das minhas, bem
não por querer mas acontecia. Lembro-me que ter sido expulso e so não levei
processo disciplinar pois o padre que era encarregado foi falar com a
professora vista a coisa agora aquilo eram coisas da idade, todos tínhamos canetas
bic, e o divertimento era o concurso que havia entre colegas de quem rilhava as
canetas primeiro, eu rilhava mas nunca devorei nenhuma como vi fazer a colegas
e sempre tinha a preocupação de deixar a tampa pequenina por muito que rilhasse
ou fizesse por isso depois de rilhar colocava a tampinha, numa aula de estudos
Sociais, comecei a ter comichão no nariz, primeiro coças depois o dedo e como a
comichão não parava decidi coçar com a caneta, a comichão passou mas quando
tirei a caneta dei-me conta que a tampinha tinha ficado no nariz e se respirava
entrava, como entrou, em pânico e assustado, comecei a soar-me para um lenço
mas como o assoar não parava e eu queria era que a tampinha saísse, comecei a
dar nas vistas e a professora mandou-me parar expliquei-lhe o que se tinha passado
que estava com a tampa no nariz, e a minha voz tornara-se nasalada, ela se
entendeu não devia entender, começou aos berros, eu não entendia nada só queria
que a tampinha saísse e não saia, expulsou-me e disse que as coisas não iam
ficar assim, bem o certo é que mal ma vi fora da sala funguei tentei tirar a
tampinha metia a ponta do lenço e nada ia sempre para dentro.
Vou para o seminário que durante
esse período estava praticamente vazio pois estávamos nas aulas e o irmão encarregado
ao ver-me surpreendeu-se, e lá tentou ajudar o certo e que a tampinha não saia.
Fui lá para um sítio e sentou-me em cima de uma mesa e espreitava para dentro
do nariz mas não via nada, bem passado um bom bocado depois dele me dizer
funga, disse vou buscar uma coisa que tenho no quarto que pode ajudar.
Saiu e quando regressou ainda eu
fungava e assoava-me para ver se saia a tampinha, e a tampinha nada, ele entrou
e disse fui buscar o meu clister, talvez ajude, encheu de água e enfiou a ponta
que estava presa a uma torneira que por sua vez estava ligada ao reservatório da
agua, e enfiou aquilo pelo nariz e ligou a agua, bem olhem não chorava como não
chorei mas a agua essa engasgava ele com o cano forçava a tampa com a ajuda da agua,
e aquilo demorou ainda um tempo, só depois de uma pausa e lembro-me que ele
disse isto esta difícil acho que vamos ao hospital, comecei a espirrar e saiu a
tampa.
Nem calculam a felicidade que
tive ao ver a tampa no chão.
So soube anos depois para que
servia o mecanismo do clister, ainda bem, mas no dia seguinte soube que tinha
um processo disciplinar, ia haver uma reunião, e para minha sorte ainda bem que
o encarregado de educação era o irmão que me enfiou o clister pelo nariz.
E as coisas la foram solucionadas,
lembro-me que em estudos sociais nunca mais rilhei canetas, nem fazia nada a
não ser estar com atenção ou fazer o que tinha que fazer.
Mas tinha sobre mim sempre já a
fama do destabilizador, e para surpresa e durante o ano acho que a Prof. Deu-se
conta que aquilo foi algo que aconteceu, tinha sido um acidente, e lembro-me
que ela um dia pediu para ficar no fim e dizer-me sabe as vezes nos também não
temos os melhores dias, eu lembro-me que no silencio característico dizer como
a todos, v ala acho que exagerei, eu ai lembro-me pedir desculpas e disse foi
tudo pela tampinha da caneta, ela ai interrompeu-me e disse vai la para o
intervalo mas podes participar, é que estas demasiado calado. E lá sai eu, para
o recreio falar com o único amigo que tinha.

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