quarta-feira, 17 de março de 2010

Livros cinema e metaforas, O Livro de Eli


Há muito, muito tempo na adolescência, e nas noites da dois que passavam filmes, diferentes dos comerciais da um e depois do jantar e da revisão dos TPC escolares sentava-me em frente ao televisor e via o filme dessa noite, nesses tempos idos mas presentes na memória, pela mão do cinema dava a volta ao mundo, via utopias, recriações do real, via interpretações de épocas de politicas do amar do odiar, ironias da existência, pela televisão apreendia, aprendendo pela janela indiscreta o maravilhoso mundo do cinema.
Nessa época lembro-me de quase muitos desses filmes mas esqueço-me do nome dos títulos pois na maioria da vezes o titulo original não coincidia com o titulo colocado.
Nesses visualizações lembro-me de ter visto um filme que se me gravou na memória, em traços gerais havia um regime ditatorial que não gostava de livros e tentava bani-los das prateleiras das casas, havia uma policia encarregada de organizar fogueiras das vaidades queimando os livros, e havia um grupo de resistentes que tentava salvar essa cultura impressa, com o desenvolver do filme chegamos ao ponto que os resistentes convertem-se em homens livros, devido há dificuldade de guardar aquela cultura impressa decoravam livros e eram os guardiões daquele texto.
Fiquei se por um lado horrorizado em ver queimar livros por outro a ideia de se decorar um livro e sabe-lo decore fez-me comparar com a situação com um provérbio que não sei a origuem. O provérbio diz”um homem velho é uma biblioteca”, sempre vi a idade como um acomular de experiencias de histórias de modos de estar, um testemunho do existir, e um colectivo de pessoas idosas pode ser uma enciclopédia.
Esta ideia da idade que leva a acumulação de saber, se por um lado nessa minha adolescência, parecia uma idade maravilhosa para as memórias ou um colectivo de memorias composto por varias pessoas que com a mesma idade tem formas de ver factos pessoais, que fazem parte de um testemunho.
Mas já na fase adulta dei-me conta dos problemas de ser idoso, os pesos que isso acarreta, e durante tempos via os idosos como tomos enciclopédicos colocados em casas de retiro aguardando para serem queimados. A ideia nessa época era o filme mais terrorífico, pois perdia-se toda uma forma de ver de sentir e o seu posicionamento, testemunho sobre determinados momentos.
Depois descobri o que é a etnologia, a recolha de dados, o saber ouvir e plasmar o que se ouviu em texto, ou a partir dali equacionar um texto.
Mas ontem outra vez aquele filme antigo que sempre ficara na memória, voltou a memória, ontem visionei o Livro de Eli, e conforme via o filme se ao princípio lembrei-me de um MadMax, mas começou a aparecer o livro e o interesse por este lembrei-me logo daquel filme que me ficara na memória.
No Livro de Eli temos uma situação parecida uma civilização que colapsou, entrou em regressão, e o livro tornou-se um bem precioso, ou melhor dizendo um objecto rara quase em extinção, e no fim do filme no meio da baia de S. Francisco os guardiões dos livros, e ai na ilha que pode ser entendida dentro como varias metáforas numa ilha, prisão, guardiã,  o livro que é preso. E nessa ilha o portador do livro dita o livro e reescreve-se o livro mais vendido do ocidente a Bíblia,
A bíblia sempre a vi como uma biblioteca, uma biblioteca pequena mas contendo todos os tomos essenciais para ajudar ou não dependendo de como se leia, mas é na bíblia que temos a chave do homem do ocidente. E sempre se estudou que aquele livro foi formado, compilado escrito com base na tradição oral, das histórias que na época das oralidades eram guardadas por homens livros passadas no lar da casa, e com a escrita foram escritas, copiadas, recopiadas, e finalmente impressas. E com a impressão reavaliados os textos, criando o que ficaria conhecido por texto canónico e texto apócrifo.
Mas o interessante do filme se por um lado temos a ideia do homem que ao longo da vida trás um livro, ou é detentor no seu interior de todo um saber, vemos que no fim na ilha do começar a escrever, revivesse a origem do texto o horal que é memorizado, guardado e que é escrito manualmente e depois impresso.
O eixo central do filme achei magnifico, podemos vê-lo, todo ele como uma metáfora, uma civilização em ruínas onde um homem tem por missão levar o livro que é uma das chaves do ocidente para local seguro, e não se perder.
Mas podemos pegar neste tema e ver que ao longo da historia literária temos vários referentes a este respeito.
A historia sempre nos fala de períodos onde os livros eram indexados em listas “Index”, e essas lista era a lista dos livros a eliminar, depois em Florença o acto de queimar livros ou arte foi chamado de fogueira das vaidades, depois como não se conseguiu eliminar essa cultura foram criadas outras fogueiras chamados de autos de fé, e ai tentava-se acabar com o lam de uma vez,  a biblioteca da existência que cada um traz dentro del e vai compilando ao longo do existir.
Neste momento vem-me imensos livros há cabeça que falam do assunto, mas já que falo do cinema tenho esse “Nome da Rosa” metáfora de um tempo, onde se analisava o problema da censura, do Index, do auto da fé, toda a trama decorre há volta de um livro polémico que aborda o tema da Ironia de Deus, e o poder do riso. O riso como algo que pode ser perverso, e se por um lado temos uma cultura que sempre nos da a visão de um Deus metafórico, velho e Sisudo, a tentar esconder um livro sobre outra chave da cultura ocidental que se questionava sobre tudo e sobre nada, e escrevendo metáforas, onde temas tão abstractos que quase palpáveis na existência de cada um como o poder do riso. Bem como o efeito do rir e da ironia, o riso como arma.
E mais uma vez temos um livro fechado numa torre, que só uma minoria tem acesso, e os guardiões como acham o livro ali guardado se por um lado muito importante, o conhecimento daquele saber modifica de tal forma quem o lê, que arranjaram a estratégia de destruir tanto o leitos como o livro..
Mais uma vez temos o livro e o homem como metáfora mais uma vês vemos a importância do scriptoriun e do copista, responsável por manter viva uma tradição uma tradição como diz o nome copia não produz novo pensamento a partir de, o novo pensamento é produzido não pela liberdade de pensar mas com a finalidade do sabre  estando entregues a alguns, mas o copista podemos chamar-lhe o precursor da maquina de escrever mecânica e quando copia um documento escrito em serie da impressão, para  deixar impressa todo um saber como precaução e protecção.
Mas sobre o tema do homem e do livro temos imensas metáforas, (desde o Quixote, as memorias o eu plasmado em texto, etc) a ilustração o livro e o homem, a necessidade de dar imagens a texto e a união das artes onde texto e imagem se unem, se nos dermos conta antes de se começar a rodar um filme existe todo um processo de guião, original ou adaptado mas há a necessidade da escrita a escrita como códice e extensão do eu que através dela registo o pensamento para não se perdes, mas podemos também falar do desenho como escrita como registo, no cinema depois do texto vem o desenho de como colocar em imagem e da melhor forma o que se pretende e começamos a ver que mais uma vez as artes começam a unir-se a interligar-se o eu e a produção, que tudo pode ser pretexto para dar forma cingir outra vez as artes a patamares estanques hoje em dia acho demasiado perigoso pois tido se interliga para dar forma ao todo. Forma a ideia forma ao que se pretende. O importante é a produção de “metáforas” chamemos-lhe assim que nos falam de coisas ou de uma forma aberta sujeita a varias interpretações ou restrita, mas segundo o meu ponto de vista, toda a obra é aberta e sujeita há interpretação do sujeito que a observa. Quem produz pode pretender ter esta ou aquela finalidade, esse é o objectivo de quem produz, so que temos que ter em conta que a produção que é absorvida passa pelo crivo do observador apesar das imensas regras que muitas vezes se tentam criar para a interpretação, o eu sujeito observador e a forma de como vejo e analiso é um processo individual, independente do de quem produz.

Já agora amanhã tentarei escrever sobre o surreal e a interpretação e reinterpretação, pois falta-me ainda visualizar e rever determinado material que estou curioso, refiro-me ao Alice no pais das maravilhas e ao lado psicológico do mundo interior e de como falar desse interior para o exterior, as artes ensinam-nos determinados mecanismos de como criar e dar forma a determinadas ideias, o surrealismo trouxe consigo não uma inovação mas uma nova forma de dar forma a determinadas problematizações do eu interior.
Alice é a viagem ao mundo infantil solitário onde tudo se anima para brincar contigo e ensinar, todo o acto de brincar tem em si varias vertentes se por um lado podemos considerar as crianças como “inocentes”, existe todo o revés da medalha, sobre esta dicotomia existem vários textos na literatura o próprio Genet tem um texto onde aborda o tema, mas não só, a própria bíblia tem vários textos, por exemplo o José do Egipto, uma grande metáfora onde põem em causa entre o “inocente” e o “preverso”, mas não só, se olharmos por exemplos para os apócrifos da vida de Cristo na infância e os lermos ao contrário, ou dando-lhe a interpretação inversa vemos que pode ser terrorífica.
Mas Alice fala da criança solitária, da criança que dialoga com ela e tem os seus amigos imaginários que a conduzem numa aventura.
Aventuras destas são comuns ao longo da historia uma s mais canalizadas outras menos, Numa época não tão remota lembro-me ler S. João da cruz ou S. Teresa de Ávila como se aquilo fosse um Alice no pais das Maravilhas. Se olharmos muitas das vezes para as vidas dos santos temos todos os predicados para vermos Alice nos países das maravilhas onde o psicanalítico se plasma nos diálogos das suas reclusões. E a imaginação é os únicos pássaros que não podemos prender.
Neste sentido basta analisar a produção feita em tempos de reclusão, e quanta Alice nos países das maravilhas existiram num mundo limitado que a sua imaginação abriu a porta para as aventuras mais maravilhosas.

E ando curioso para ver este Alice regressa, fugindo de uma realidade que ela gostaria de ver pintada de outra forma pois o íntimo do seu eu só ela e os seus amigos da imaginação é que a conhecem.
Mas esta anciã por ver o Alice do Tim Burtom faz-me lembrar uma musica mas aqui completa mente diferente, estou ansioso de ver Alice no seu filme colorido que le Burton quer fazer sair do plano da tela (pois acho que o futuro vai ser o 3D) mas isto leva a questionar como vai ser consumido no intimo da família o filme e a sua tridimensionalidade.
Novas questões comerciais, mas isso já é o superar o equipamento para vender-se o actual que permite determinadas funções.

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