Há muito, muito tempo na adolescência, e nas noites da dois
que passavam filmes, diferentes dos comerciais da um e depois do jantar e da
revisão dos TPC escolares sentava-me em frente ao televisor e via o filme dessa
noite, nesses tempos idos mas presentes na memória, pela mão do cinema dava a
volta ao mundo, via utopias, recriações do real, via interpretações de épocas
de politicas do amar do odiar, ironias da existência, pela televisão apreendia,
aprendendo pela janela indiscreta o maravilhoso mundo do cinema.
Nessa época lembro-me de quase muitos desses filmes mas esqueço-me
do nome dos títulos pois na maioria da vezes o titulo original não coincidia
com o titulo colocado.
Nesses visualizações lembro-me de ter visto um filme que se
me gravou na memória, em traços gerais havia um regime ditatorial que não
gostava de livros e tentava bani-los das prateleiras das casas, havia uma
policia encarregada de organizar fogueiras das vaidades queimando os livros, e
havia um grupo de resistentes que tentava salvar essa cultura impressa, com o
desenvolver do filme chegamos ao ponto que os resistentes convertem-se em
homens livros, devido há dificuldade de guardar aquela cultura impressa
decoravam livros e eram os guardiões daquele texto.
Fiquei se por um lado horrorizado em ver queimar livros por
outro a ideia de se decorar um livro e sabe-lo decore fez-me comparar com a
situação com um provérbio que não sei a origuem. O provérbio diz”um homem velho
é uma biblioteca”, sempre vi a idade como um acomular de experiencias de
histórias de modos de estar, um testemunho do existir, e um colectivo de
pessoas idosas pode ser uma enciclopédia.
Esta ideia da idade que leva a acumulação de saber, se por
um lado nessa minha adolescência, parecia uma idade maravilhosa para as
memórias ou um colectivo de memorias composto por varias pessoas que com a
mesma idade tem formas de ver factos pessoais, que fazem parte de um
testemunho.
Mas já na fase adulta dei-me conta dos problemas de ser
idoso, os pesos que isso acarreta, e durante tempos via os idosos como tomos
enciclopédicos colocados em casas de retiro aguardando para serem queimados. A ideia
nessa época era o filme mais terrorífico, pois perdia-se toda uma forma de ver
de sentir e o seu posicionamento, testemunho sobre determinados momentos.
Depois descobri o que é a etnologia, a recolha de dados, o
saber ouvir e plasmar o que se ouviu em texto, ou a partir dali equacionar um
texto.
Mas ontem outra vez aquele filme antigo que sempre ficara na
memória, voltou a memória, ontem visionei o Livro de Eli, e conforme via o
filme se ao princípio lembrei-me de um MadMax, mas começou a aparecer o livro e
o interesse por este lembrei-me logo daquel filme que me ficara na memória.
No Livro de Eli temos uma situação parecida uma civilização
que colapsou, entrou em regressão, e o livro tornou-se um bem precioso, ou
melhor dizendo um objecto rara quase em extinção, e no fim do filme no meio da
baia de S. Francisco os guardiões dos livros, e ai na ilha que pode ser
entendida dentro como varias metáforas numa ilha, prisão, guardiã, o livro que é preso. E nessa ilha o portador
do livro dita o livro e reescreve-se o livro mais vendido do ocidente a Bíblia,
A bíblia sempre a vi como uma biblioteca, uma biblioteca
pequena mas contendo todos os tomos essenciais para ajudar ou não dependendo de
como se leia, mas é na bíblia que temos a chave do homem do ocidente. E sempre
se estudou que aquele livro foi formado, compilado escrito com base na tradição
oral, das histórias que na época das oralidades eram guardadas por homens
livros passadas no lar da casa, e com a escrita foram escritas, copiadas, recopiadas,
e finalmente impressas. E com a impressão reavaliados os textos, criando o que
ficaria conhecido por texto canónico e texto apócrifo.
Mas o interessante do filme se por um lado temos a ideia do
homem que ao longo da vida trás um livro, ou é detentor no seu interior de todo
um saber, vemos que no fim na ilha do começar a escrever, revivesse a origem do
texto o horal que é memorizado, guardado e que é escrito manualmente e depois
impresso.
O eixo central do filme achei magnifico, podemos vê-lo, todo
ele como uma metáfora, uma civilização em ruínas onde um homem tem por missão
levar o livro que é uma das chaves do ocidente para local seguro, e não se
perder.
Mas podemos pegar neste tema e ver que ao longo da historia literária
temos vários referentes a este respeito.
A historia sempre nos fala de períodos onde os livros eram
indexados em listas “Index”, e essas lista era a lista dos livros a eliminar,
depois em Florença o acto de queimar livros ou arte foi chamado de fogueira das
vaidades, depois como não se conseguiu eliminar essa cultura foram criadas
outras fogueiras chamados de autos de fé, e ai tentava-se acabar com o lam de
uma vez, a biblioteca da existência que
cada um traz dentro del e vai compilando ao longo do existir.
Neste momento vem-me imensos livros há cabeça que falam do
assunto, mas já que falo do cinema tenho esse “Nome da Rosa” metáfora de um
tempo, onde se analisava o problema da censura, do Index, do auto da fé, toda a
trama decorre há volta de um livro polémico que aborda o tema da Ironia de Deus,
e o poder do riso. O riso como algo que pode ser perverso, e se por um lado
temos uma cultura que sempre nos da a visão de um Deus metafórico, velho e Sisudo,
a tentar esconder um livro sobre outra chave da cultura ocidental que se
questionava sobre tudo e sobre nada, e escrevendo metáforas, onde temas tão abstractos
que quase palpáveis na existência de cada um como o poder do riso. Bem como o
efeito do rir e da ironia, o riso como arma.
E mais uma vez temos um livro fechado numa torre, que só uma
minoria tem acesso, e os guardiões como acham o livro ali guardado se por um
lado muito importante, o conhecimento daquele saber modifica de tal forma quem
o lê, que arranjaram a estratégia de destruir tanto o leitos como o livro..
Mais uma vez temos o livro e o homem como metáfora mais uma vês
vemos a importância do scriptoriun e do copista, responsável por manter viva
uma tradição uma tradição como diz o nome copia não produz novo pensamento a
partir de, o novo pensamento é produzido não pela liberdade de pensar mas com a
finalidade do sabre estando entregues a
alguns, mas o copista podemos chamar-lhe o precursor da maquina de escrever mecânica
e quando copia um documento escrito em serie da impressão, para deixar impressa todo um saber como precaução e
protecção.
Mas sobre o tema do homem e do livro temos imensas metáforas,
(desde o Quixote, as memorias o eu plasmado em texto, etc) a ilustração o livro
e o homem, a necessidade de dar imagens a texto e a união das artes onde texto
e imagem se unem, se nos dermos conta antes de se começar a rodar um filme
existe todo um processo de guião, original ou adaptado mas há a necessidade da
escrita a escrita como códice e extensão do eu que através dela registo o
pensamento para não se perdes, mas podemos também falar do desenho como escrita
como registo, no cinema depois do texto vem o desenho de como colocar em imagem
e da melhor forma o que se pretende e começamos a ver que mais uma vez as artes
começam a unir-se a interligar-se o eu e a produção, que tudo pode ser pretexto
para dar forma cingir outra vez as artes a patamares estanques hoje em dia acho
demasiado perigoso pois tido se interliga para dar forma ao todo. Forma a ideia
forma ao que se pretende. O importante é a produção de “metáforas” chamemos-lhe
assim que nos falam de coisas ou de uma forma aberta sujeita a varias
interpretações ou restrita, mas segundo o meu ponto de vista, toda a obra é
aberta e sujeita há interpretação do sujeito que a observa. Quem produz pode
pretender ter esta ou aquela finalidade, esse é o objectivo de quem produz, so
que temos que ter em conta que a produção que é absorvida passa pelo crivo do
observador apesar das imensas regras que muitas vezes se tentam criar para a
interpretação, o eu sujeito observador e a forma de como vejo e analiso é um
processo individual, independente do de quem produz.
Já agora amanhã tentarei escrever sobre o surreal e a
interpretação e reinterpretação, pois falta-me ainda visualizar e rever
determinado material que estou curioso, refiro-me ao Alice no pais das
maravilhas e ao lado psicológico do mundo interior e de como falar desse
interior para o exterior, as artes ensinam-nos determinados mecanismos de como
criar e dar forma a determinadas ideias, o surrealismo trouxe consigo não uma
inovação mas uma nova forma de dar forma a determinadas problematizações do eu
interior.
Alice é a viagem ao mundo infantil solitário onde tudo se
anima para brincar contigo e ensinar, todo o acto de brincar tem em si varias
vertentes se por um lado podemos considerar as crianças como “inocentes”, existe
todo o revés da medalha, sobre esta dicotomia existem vários textos na
literatura o próprio Genet tem um texto onde aborda o tema, mas não só, a própria
bíblia tem vários textos, por exemplo o José do Egipto, uma grande metáfora onde
põem em causa entre o “inocente” e o “preverso”, mas não só, se olharmos por
exemplos para os apócrifos da vida de Cristo na infância e os lermos ao
contrário, ou dando-lhe a interpretação inversa vemos que pode ser terrorífica.
Mas Alice fala da criança solitária, da criança que dialoga
com ela e tem os seus amigos imaginários que a conduzem numa aventura.
Aventuras destas são comuns ao longo da historia uma s mais
canalizadas outras menos, Numa época não tão remota lembro-me ler S. João da
cruz ou S. Teresa de Ávila como se aquilo fosse um Alice no pais das
Maravilhas. Se olharmos muitas das vezes para as vidas dos santos temos todos
os predicados para vermos Alice nos países das maravilhas onde o psicanalítico se
plasma nos diálogos das suas reclusões. E a imaginação é os únicos pássaros que
não podemos prender.
Neste sentido basta analisar a produção feita em tempos de
reclusão, e quanta Alice nos países das maravilhas existiram num mundo limitado
que a sua imaginação abriu a porta para as aventuras mais maravilhosas.
E ando curioso para ver este Alice regressa, fugindo de uma
realidade que ela gostaria de ver pintada de outra forma pois o íntimo do seu
eu só ela e os seus amigos da imaginação é que a conhecem.
Mas esta anciã por ver o Alice do Tim Burtom faz-me lembrar
uma musica mas aqui completa mente diferente, estou ansioso de ver Alice no seu
filme colorido que le Burton quer fazer sair do plano da tela (pois acho que o
futuro vai ser o 3D) mas isto leva a questionar como vai ser consumido no
intimo da família o filme e a sua tridimensionalidade.
Novas questões comerciais, mas isso já é o superar o
equipamento para vender-se o actual que permite determinadas funções.

Sem comentários:
Enviar um comentário