segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


“O homem perante a morte”


Decidi abordar este tema por motivos de desabafo pessoal.
O título que da nome ao texto que escrevo é igual ao livro do Philip Arier, livre esse que li numas férias de verão e abordava a questão da morte e os seus rituais ao longo da história.
Ao escrever um texto tendo este titulo não pretendo fazer uma análise histórica da morte mas sim fazer um desabafo pessoal.
Devido a questões pessoais esta semana esse tema tornou-se particularmente presente pois desapareceu desta forma corpórea existencial a minha avó, uma das pessoas mais importantes da minha existência.
Para ser sincero experiencia fúnebres tenho-as poucas (a meu ver muitas), de ordem famílias e dos parentes mais próximos lembro-me ir ao funeral de três pessoas e de pessoas não tão próximas de cinco.
Há muitos anos ainda criança começava a descortinar a existência depressa soube o que era a morte ai não fui a funerais mas os corpos esses mortos estavam caídos nos chão vitimas de soquetes ou de tiroteios era a guerra. Depois o funeral do meu visa avô, funeral este que foi proibido as crianças de casa participar.
Anos mais tarde estava eu já no serviço militar numa manha vestido com a farda de educação física no meio de um pelotão que ia fazer exercício físico é-me dada a notícia do seu falecimento, noticia que foi uma surpresa pois ninguém espera acho eu por notícias destas, mas colheu tão de surpresa alem de ficar incrédulo pensava que era um esquema psicológico para me testar e só reconheci o facto depois de ter falado telefonicamente com a minha mãe e confirmar a noticia.
Mas ultimamente mais uma vez essa noticia foi-me dada, noticias dessas sempre são uma surpresa, por mais que sabemos que essa noticia estar para breve, quando chega nunca acreditemos nela.
Mas o que me leva a escrever, não é falar aqui há cerca do vazio que provoca uma perda mas sobre o conceito da forma de morrer.
A minha avo já de longa idade tinha vários problemas por motivo da idade, e ultimamente já estava acamada, para ser sincero, nos dois últimos dias a minha presença essa foi pouca ao seu lado, mas sempre tentei estar o mais próximo possível, mas não estive ao seu lado pois devido a um problema de saúde (cólica renal) que é presente já desde o ano de 89, me obrigou mais uma vês visitar o hospital passar ai a noite e a manha. Regressado a casa e devido ao tratamento cansado fui para o meu quarto descansar e no dia seguinte quando acordei foi-me dada a noticia que a minha avo tinha sido ingressada no hospital pois tinha piorado, achei estranho, mas foi-me logo dito que ela já fora praticamente morta pois a minha mãe falara com o medico e segundo parece agora as pessoas têem que dar o seu ultimo respiro “sufla vita” num hospital pois é a forma digna de se morrer.
Acontecimento estranho aos meus ouvidos essa de uma morte digna ser num hospital, que evolução mais fria penso eu sobre este motivo, pois na própria história já quando o ente querido esta nos seus últimos momentos, é o momento em que a família porcina se reúne e fica o mais próximo possível do seu ente querido.
Aqui a situação do meu ponto de vista foi estranha pois eu nem sequer fui chamado para ver a minha avó, e foi-me dada a desculpa da morte digna hospitalar.
Alem de estar sempre a telefonar para o hospital, esse instante em que os familiares mais próximos ficam ao lado nos foi negado.
Ai apesar da dor lembrei-me deste livro e das formas de perspectivar a morte num contexto histórico. Integrada uma história de visão social pos movimento anales onde tenta olhar e posicionar o homem no contexto existencial da sua existência.
O mais estanho é que ao analisarmos épocas e o olhar para esta contemporaneidade que a todos nos liga vemos que o lado humano cada vez mais esta descaracterizado. Neste sentido não me admiro de ser tema recorrente dos noticiários essa descaracterização familiar, pois o próprio conceito de família parece ter evoluído para uma forma de frieza sentimental.
Se repararmos o próprio acto de envelhecer nunca foi bem visto, em sertãs sociedades um velho é uma biblioteca ou uma pessoa que guarda com ele uma experiencia existencial, hoje em dia o ser humano velho é visto como algo a abater, se repararmos vivemos sobe o desígnio do narciso, ninguém gosta de assumir as rugas, ninguém gosta de assumir que anos tem.
Mas já nos desviamos do conceito de morte, pois nunca senti esse sentido tão estranho, estranho pela frieza sentimental e pela forma de como esta morte em particular foi tratada com os familiares, a mim foi-me negado estar esses ultumos instantes com a pessoa mais importante, os hospitais estão distantes (neste momento estou numa aldeia em trás os montes), mas dando forma ao sentimento essa pessoa esteve sempre ao meu lado.
Se vivêssemos noutra sociedade isso seria encarado como algo terrível pois o ritual de libertação da alma fora negado, esse martelo da libertação fora negado há alma para a sua forma libertária dos ciclos.
Mas vivemos sobre outros auspícios ou outros credos a morte tem uma nova forma de ser encarada mesmo o próprio ritual de libertação da alma.
Para muitos católicos o que estou a escrever pode ser visto como uma autentica aberração, mas uma coisa é sertã o conceito de alma e espírito é transversal a todos ritual e a toda a sociedade. Deste o primitivo mais remoto na selva ate há selva de cimento novo conceito de selva e de espaço nova forma de vivência social, trouxe consigo uma nova forma de se olhar para o rito fúnebre de libertação de forma diferente.
Se repararmos hoje em dia ate o acto de morrer é uma espécie de negocio onde a própria perspectiva de sagrado bem como de ritual esta completamente esvanecido.
Se o ritual da significado há vida é são os rituais que marcam a existência vivemos cheios de rituais mas ao mesmo tempo vivemos numa época de dessacralização da própria ritualidade.
Se os actos iniciáticos sempre pontilharam a existência hoje em dia a opção que se possam tomar nas escolhas desses acostuma-se cada vez mais não uma opção mas uma imposição, do meu ponto de vista hoje quem controla os ritos iniciáticos impõe e não pergunta que desejas, tornando o ritual e quem participa nele uma mera experiência pavloviana onde todos por muito que queiramos somos experiencias realísticas.
Assim mais uma vez estamos na fase esperimentativa de novos rituais e novas formas de encararmos a vida e a morte. Onde nos podemos perguntar se integrado nesses rituais nos dão a oportunidade de escolha.
Do meu ponto de vista não, e segundo o meu ponto de vista o ritual e feito em proveito dos executantes e nem sequer é colocada ao participante a questão de opção.
E mesmo que este opte pelo contrário tudo é feito para que este não consiga levar a cabo o que pertende.

Podemos dizer que vivemos então numa retratística ditatorial.
Olhem eu para ser sincero o estar a velar a minha avó pareceu-me uma espécie de fuzilamento colectivo de unhas havidas por flagelar quem quer que fosse.
Pela primeira vez senti-me dentro de uma igreja como se estivesse num campo de concentração, sentimento estranho que ainda terei que reflectir melhor sobre ele pois foi das experiências mais chocantes que tive.
Alem do sentimento do vazio provocado pelo desaparecimento daquela forma corpórea. E da despedida de um invólucro.
Foi a visão de unhas querendo flagelar.
Eu neste, momentos isolo-me fecho-me, e não gosto de chorar em público, e as pessoas que amamos ficam eternas, vivem sempre nesse lugar chamada memória.
Mas acima de tudo acredito que o espírito é sempre eterno.
A minha avó fisicamente desapareceu, mas a mulher que é e admirei, fomos cúmplices em muitas coisas, e essa forma de ser e da sua existência que me fica na memória.
A oração segreta que me ensinou continua a ser a minha oração
Minha avó minha mãe.
É sempre eterna, pois é essa a memoria que vive em mim.
Não escrevo mais, a este respeito pois os sentimentos e essa memória só me diz respeito a mim e a ela.
Hoje ainda peço silêncio por favor
Que trago uma dor no peito.

Pedindo desculpas a quem já esta acostumado em ler a diário o não ter aparecido nos últimos dias novas entradas.

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